Quanto do seu treino deveria ser fácil
Em atletas de alto nível, três quartos das sessões ficam abaixo do primeiro limiar. O praticante amador faz quase o contrário, e a conta chega no treino que ele não podia perder.
Resumo em 5 pontos
- Em esquiadores de nível nacional, 75% das sessões ficaram abaixo do primeiro limiar e 17% acima do segundo. Só 8% caíram na zona intermediária.
- O amador organiza a semana ao contrário: concentra o treino numa zona moderada, dura o bastante para gerar fadiga e leve o bastante para não gerar adaptação de alta intensidade.
- O custo não aparece no dia. Aparece no treino de qualidade da semana, que sai pela metade porque você chegou nele já cansado.
- O teste da conversa resolve na prática o que um frequencímetro mal calibrado não resolve, desde que você saiba o tamanho dessa ferramenta.
- Num ensaio com corredores recreativos, o treino polarizado não venceu o de zona intermediária de forma estatisticamente significativa. Venceu entre quem de fato cumpriu a distribuição.
O problema não é o volume. É onde o volume está sendo gasto
A queixa mais comum de quem treina há alguns anos tem sempre a mesma forma: o volume subiu, a disciplina está lá, e o pace parou. A leitura automática é que falta treino. Na maioria das semanas que eu abro, sobra treino no lugar errado.
Quando se mede o que atletas de endurance de alto nível fazem, a distribuição é consistentemente polarizada. Em onze esquiadores juniores de nível nacional, 384 sessões monitoradas ao longo de 32 dias se distribuíram em 75% abaixo do primeiro limiar ventilatório, 8% na zona intermediária e 17% acima do segundo limiar.1 Os autores resumem o achado numa frase que vale reler: atletas de endurance de elite treinam surpreendentemente pouco na intensidade de limiar.
No ano que antecedeu uma medalha de ouro olímpica ou mundial, onze esquiadores e biatletas registraram cerca de 800 horas de treino, das quais 90% em intensidade baixa.2
Não é escolha estética. É o que permite acumular volume sem acumular fadiga a ponto de comprometer as sessões que exigem qualidade.
Por que a zona do meio cobra caro
O treino de intensidade baixa e o de intensidade alta pedem coisas diferentes do organismo, e cada um paga por um caminho.
O trabalho em intensidade baixa constrói a base aeróbia com custo de recuperação pequeno. Ele pode ser repetido no dia seguinte sem prejuízo, e é isso que permite volume.
O trabalho em intensidade alta gera o estímulo que move o teto, e custa caro. Por custar caro, ele precisa ser raro e precisa acontecer com o atleta descansado. Um tiro feito em cima de fadiga acumulada não é um tiro. É um treino moderado com nome de tiro.
A zona intermediária acumula fadiga parecida com a do treino forte e entrega adaptação parecida com a do treino fácil. É a pior relação entre o que se paga e o que se leva. Quem treina sempre ali não está treinando pouco. Está pagando o preço do treino forte sem receber o produto dele.
Como saber se o seu fácil é fácil de verdade
Três formas, da mais grosseira para a mais precisa. A mais grosseira é a que funciona melhor no dia a dia.
Teste da conversa. Se você consegue falar uma frase inteira sem interromper para respirar, está no ritmo fácil. Se fala em pedaços, saiu dele.
Vale saber o tamanho dessa ferramenta antes de confiar nela. Um estudo de validação manipulou o limiar ventilatório para cima, com treinamento, e para baixo, com doação de sangue, e o teste da conversa acompanhou a mudança nos dois sentidos, o que sustenta usá-lo para prescrever intensidade.3 Uma revisão posterior chega à mesma conclusão e mostra que ele se comporta de forma parecida na caminhada, na corrida, na bicicleta e no elíptico.4
A literatura não é unânime. Um estudo anterior encontrou variabilidade individual grande e concluiu que, na forma não padronizada, o teste é substituto questionável do limiar.5 As duas leituras convivem bem na prática: o teste da conversa é bom para saber se você saiu do fácil, e ruim para definir com precisão o ritmo de um treino de qualidade. Use para a primeira coisa.
Frequência cardíaca, com ressalva. Zona por percentual de frequência máxima estimada por fórmula carrega erro grande no indivíduo. Se você nunca fez um teste, o número da sua planilha é um chute com aparência de dado. Serve para acompanhar tendência ao longo das semanas, não para decidir o ritmo de hoje.
Desacoplamento no longão. Compare a relação entre ritmo e frequência cardíaca na primeira e na segunda metade de um treino longo em ritmo constante. Se a frequência sobe de forma relevante enquanto o ritmo se mantém, aquele esforço estava acima do que você sustenta com folga. É o dado mais honesto que um relógio comum entrega.
A árvore de decisão do treino de hoje
| Situação | O que fazer | Por quê |
|---|---|---|
| Amanhã tem treino-chave (longão ou intervalado) | Fácil de verdade | Aplique o teste da conversa no meio da rodagem, não no começo |
| Você fez treino forte ontem e ainda sente a perna | Fácil e mais curto | Fadiga residual transforma qualquer intensidade média em treino sem produto |
| Dormiu mal e a frequência de repouso está acima do seu normal há dois ou três dias | Fácil ou descanso | Estímulo forte agora é depósito em conta que não rende |
| Descansado, dormiu bem, e o calendário pede qualidade | Forte de verdade | Se for para fazer moderado, é melhor não fazer |
| Não sabe em qual linha você está | Fácil | Um dia fácil desnecessário custa pouco. Um dia forte na hora errada contamina a semana |
Se você tem três sessões por semana e prova marcada, então duas fáceis e uma forte é o piso, não o teto.
Se a sessão forte de ontem ainda pesa hoje, então o problema foi a dose de ontem, não a preguiça de hoje.
Se você não consegue completar uma frase durante a rodagem que chamou de leve, então ela não foi leve, e o treino-chave de amanhã já está comprometido.
A conta de 80 por 20 quase nunca é a sua conta
Antes da aritmética, um dado que quase nunca é citado por quem defende a polarização. Trinta corredores recreativos foram divididos por sorteio em dois grupos por dez semanas: um treinou polarizado, com 77% fácil, 3% no meio e 20% forte, e o outro concentrou o treino na zona intermediária, com 46% fácil, 35% no meio e 19% forte. Os dois grupos melhoraram o tempo de 10 km, 5,0% contra 3,6%, e a diferença entre eles não foi estatisticamente significativa.6
A vantagem do polarizado apareceu quando os autores olharam só quem de fato cumpriu a distribuição prescrita. Nesse subgrupo, a diferença ficou clara.
A leitura honesta disso é dupla. A distribuição importa, mas não é mágica, e o efeito depende de execução real, não de intenção. E os dois grupos melhoraram porque os dois treinaram de forma organizada. A distribuição é o segundo problema. O primeiro é ter uma.
Sobre a aritmética: a proporção que circula vem da observação de atletas com nove, dez, catorze sessões por semana. Numa semana de doze sessões, duas fortes ainda deixam dez fáceis, e a conta fecha sozinha.
Numa semana de três sessões, ela não fecha. Duas sessões fortes em três significam dois terços de intensidade alta, o que é insustentável. Uma sessão forte em três significa treinar qualidade uma vez por semana, o que costuma ser pouco para quem tem prova marcada.
A saída não é escolher entre os dois erros. É decidir com base no que a semana comporta: quantos dias você tem, qual é o treino que não pode ser prejudicado, quanto tempo de recuperação existe entre ele e o que vem antes, e onde a força entra sem roubar nenhum dos dois. Essa conta muda quando a prova se aproxima, quando aparece uma segunda prova no trimestre, e quando a vida desorganiza a semana.
A distribuição não é uma regra que você aplica. É uma decisão que você toma toda semana, com os dados daquela semana.
Manda a sua semana
Quando a sua semana é padrão, um plano bem construído resolve. Quando ela tem duas provas no trimestre, um histórico de lesão ou uma rotina que muda toda quinzena, a conta muda toda semana.
Se é o seu caso, me manda a sua semana. Eu leio e digo onde eu mexeria.
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- Seiler KS, Kjerland GØ. Quantifying training intensity distribution in elite endurance athletes: is there evidence for an "optimal" distribution? Scand J Med Sci Sports, 2006;16(1):49-56. DOI
- Tønnessen E, Sylta Ø, Haugen TA, Hem E, Svendsen IS, Seiler S. The road to gold: training and peaking characteristics in the year prior to a gold medal endurance performance. PLoS One, 2014;9(7):e101796. DOI
- Foster C, Porcari JP, Anderson J, et al. The talk test as a marker of exercise training intensity. J Cardiopulm Rehabil Prev, 2008;28(1):24-30. DOI
- Reed JL, Pipe AL. The talk test: a useful tool for prescribing and monitoring exercise intensity. Curr Opin Cardiol, 2014;29(5):475-80. DOI
- Rotstein A, Meckel Y, Inbar O. Perceived speech difficulty during exercise and its relation to exercise intensity and physiological responses. Eur J Appl Physiol, 2004;92(4-5):431-6. DOI
- Muñoz I, Seiler S, Bautista J, España J, Larumbe E, Esteve-Lanao J. Does polarized training improve performance in recreational runners? Int J Sports Physiol Perform, 2013;9(2):265-72. DOI
As fontes 3, 4 e 5 vêm em parte de contexto clínico e de reabilitação cardíaca. O uso aqui é de princípio, para orientar percepção de esforço em adulto saudável, e não de prescrição.